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Louco Desejo - Capitulo 21

~PEDRO

Em respeito à família do amigo de Matheus, e que esteve com ele naquele, a loja foi colocada em Luto por três dias.

Ele passou o domingo no quarto, mas na segunda-feira foi encaminhado para UTI. Isso limitava as visitas. O que dobrava as dores de Dona Giza.

Que estava se comer, sem dormir, sem tomar banho. Assim como eu. Não íamos ao trabalho, tivemos que contar com a equipe, e tipo, foi muito difícil os primeiros dias.

O diagnóstico completo, da junta de médicos saiu na terça à noite. Quando Matheus voltou para o quarto.

- Ele não escuta, não sente, não fala, não vê, o estado de coma é de inconsciência, ele pode ficar assim até o próximo segundo, próxima hora, dia, semana ou mês. Não é possível saber o tempo exato. – Ele fala friamente, de braços cruzados frente o corpo.

Sabe o pior, não poderíamos fazer nada, mover uma “palha” para ajudar ele. Nem dinheiro, nem influencia, nem amizades ou conversas, muito menos poder.

Isso era uma das maiores dores, a dor da incerteza.

São os piores dias da minha vida. E da vida de sua mãe.

Depois da primeira semana, Matheus foi transferido para um hospital particular, quando estava melhor de saúde.

Dona Giza dormia e passava toda a manhã com ele, a tarde ela cuidava da loja. Eu passava a tarde com Matheus e ia embora durante a noite. Todas as semanas, feriados, datas comemorativas, sábados e domingos. Me doei para ele.

O acidente aconteceu no mesmo dia que eu disse para Matheus que o amava.

Dormimos juntos, estávamos juntos, para todos e todas. Nunca se imagina que algo do tipo pudesse acontecer dessa forma, tão rápido e cruel.

Todos os dias, depois do almoço, eu ia para o hospital, com minha mochila, fazia conferencias do trabalho com ele, tocava suas músicas, trabalho da escola, e fazia fofocas. Ele não me respondia, nem com suspiro, nem com olhar, ou aperto de mão, mas era como eu lidava em Matheus nesse momento;

- (...) Estamos bem sabe, vendas indo bem demais, sua mãe já está com mais da metade do dinheiro para a segunda loja... Eu te falei no mês passado, que vamos colocar seu projeto em realidade... – Pego as anotações de Matheus, e coloco de lado na cama. – Quando acordar vamos fazer uns caderninhos de caligrafia amor, assim não dá. Bruno me ajudou a decifrar isso, rsrs. – Olho para ele, e levo a mão, passando em seu rosto. – Sabe parece que você sabia que isso iria acontecer, deixou tudo pronto Matheus...


~MATHEUS

Eu acordei em uma praia, de areia quente. Eu estava caminhando por dunas cálidas e suaves por quilômetros, com o oceano a minha frente, mas nunca o alcançava. Olhei para trás, meus pés não deixavam marcas na areia.

Como um sonho maluco, um piscar de olhos, apareço dentro de um trem que corria por um longo túnel escuro. As luzes ficavam passando nas janelas, piscando dentro do vagão. O movimento me impedia de ficar de pé, não havia nada onde eu pudesse segurar. E então as luzes pararam de piscar, uma estação a frente, olhei pela janela suja, para uma sequência de plataformas cheias de gente de todas as idades, esperando por um trem. Mas meu trem não parou.

Agachado no chão, tentando com todas minhas forças ficar em pé, ouvi alguém chamar meu nome.

“Matheus! Matheus, olhe aqui, era uma voz conhecida! ”

No vagão da frente meu pai acenando. “Venha Matheus! É divertido”

O vagão onde ele estava, havia lugares para se sentar, e se segurar, todo branco e limpo, de janelas de vidro praticamente transparentes de tão limpas.

Atrás escuto também, mas minha mãe. Em um vagão colorido, como a bandeira LGBT, ceio de cores e bicicletas.

Eu sei que nada disso faz sentido, eu tinha essa consciência, mas uma coisa estava certa, meu pai estava morto, minha mãe não. E subitamente eu sabia onde estava, eu estava no túnel da morte.

Simples escolha certo? Quando você tem a opção, meu corpo havia uma força maior que eu, mais forte que eu.

Não levantei, não andei, mas sim fui apoiado, Pedro me ajudou, me levou até minha mãe, e eu nunca dei um abraço tão longo e gostoso na pessoa que eu mais amava.

O trem parou, mas eu desci sozinho.

Tinha vozes, sensações em meu corpo, mas eu não falava, não me movimentava, era como se estar morto, não pelo fato de estar respirando.

Demorei para entender, dizem que pessoas em coma não tem consciência, eu não poderia ver o mundo, não interagia com ele, mas eu o sentia. Era como um espelho.

Pelo que eu ouvia, pelo que eu sentia, minha mente criou um quarto de hospital na minha mente, e através dela eu respondia minha mãe, conversava com ela, e fazia o mesmo com o Pedro.

Ele chorava muito, muito mais que minha mãe. Praticamente todos os dias, eu sentia o sofrimento deles.

Meses estavam se passando, no mesmo quarto, na mesma posição. Minha intuição descobriu um relógio no quarto, eu ouvia e seguia seus segundos, em uma contagem incansável.

Amava quando minha mãe ou Pedro entravam no quarto, pois sentia muito frio, e eles sempre me cobriam, sempre.

Minhas visitas ficaram limitadas, as pessoas perderam a esperança em mim, restou minha Mãe, Pedro, Bruno e até Lucio me visitava as vezes.

Eu sofri o acidente, fui impedido de falar a pessoa que eu amava, como me sentia com ela, eu pensei que teria outro momento, outra hora. Mas as coisas não são como sonhamos.

Eu tinha Pedro todos os dias comigo, do meu lado, segurando minha mão, eu gritava que o amava, mas ele não ouvia, meus lábios não se movimentavam, minhas mãos não respondia seus inúmeros carinhos. Eu chorava sem lagrimas, eu tinha dores sem poder reclamar, eu estava preso dentro de mim mesmo.

Meu aniversario chegou! Trouxeram meu bolo preferido, e brigadeiro é claro, minhas visitas se multiplicaram nesse dia, era de felicidade sabe, minha mãe e Pedro inauguraram a loja. Eu não vi, mas eles me contaram todos os detalhes, eles aparentemente estavam felizes. Isso era um acalanto.

No dia seguinte, quando Pedro chegou, eu escutava os pingos de chupa baterem forte na janela;

- Oi Dona Giza.... Olha cuidado, pois a chuva está muito forte.

- Menino eu estou vendo aqui pela TV, nem começou e já teve alagamento em algumas ruas.

- Tem até arvore caída pela estrada. Oi amor. – Ele aperta minha mão.

- Eu vou então, pois tenho que ir no banco ainda. – Ela fala. – Tchau meu amor. – Minha mãe beija minha testa.

Acho que Pedro sai do quarto, e volta depois de um tempo, pois ele entra comendo algo, eu escutava o talher;

- Amor, trocaram as saladas do hospital, você tem que provar essa, são várias saladas. – Ele puxa a cadeira ao lado da cama.

Pedro andou muito pelo quarto enquanto comia, ele foi ao banheiro, e fez um trabalho do meu lado. E então aumenta o volume da TV;

- Não vai acreditar, vão lançar outro filme dos “Velozes e Furiosos”, eu não sei como você e Bruno gostam tanto desses filmes... Não tem mais o que roubarem. – Ele fala rindo.

O filme passava na TV, e ele dorme sob meu braço. Sinto Pedro acordar assustado, tanto que aperta minha mão;

- Amor... Matheus... – Ele soa o nariz, acho que lagrimas desceram de seus olhos. – Amor está tão difícil sem você.... Por favor. Por favor acaba com essa dor. Eu já pedi para Deus, todos os dias, a todo momento, peço a você agora. Volta para mim, para sua mãe.

Pedro beija minha boca, e então lagrimas dele caem em meu rosto.

Imaginem um corredor longo e escuro, na frente tem uma luz, branca com ao neve em uma porta, você anda, corre mas nunca chega até ela. E de repente ela se movimenta, seus pés no chão, e ela vem com toda a força, muito, muito rápida, passando pelo seu corpo. E como um remédio para a febre, seu corpo se esquenta rapidamente e com uma força descomunal, alegria e disposição toma conta de você.

Foi a primeira vez que senti o ar entrar nos meus pulmões, o sangue correr nas veias, o coração pulsar, o toque de Pedro era fogo em minha pele.


~PEDRO

Agitei seu cobertor, desliguei a TV, a enfermeira veio fazer sua conferencia diária, eu limpei as lagrimas. Ela saiu e eu fiquei sentado ao lado dele, passei minha mão, segurando entrelaçando seus dedos nos meus.

Peguei um dos livros que eu sempre lia para ele, e comecei do início, sentado ao seu lado;

“- Era uma vez duas meninas e dois meninos: Susana, Lucia, Pedro e Edmundo. Está história conta algo que lhes aconteceu durante a guerra, quando tiveram de sair de Londres...”

Espero que escrever aqui, passe o que eu senti.

Ele se mexeu, Matheus se mexeu.

Depois de 7 meses, e 26 dias.

Sua mão em uma tentativa de apertar a minha.

Eu puxei rapidamente meu braço, tentei me levantar mas cai no chão.

- SOCORRO. – Gritei muito alto. – ALGUEM AQUI. – Me arrasto para próximo a porta.

Minha cara de espanto, meu corpo tremendo, eu não conseguia me levantar. Me chacoalhava como uma calda de cascavel.

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