• @rgpatrickoficial

Ele usa Dólmã - Capitulo 20

- Vou relevar essa alegria de vocês. – Falo entregando a faca ao Jaime.

Eu me viro e Robson cozinhando, ele era espertinho, afastou sua bagunça e foi para as panelas;

- Me entrega isso e vai arrumar aquilo, vai. – Falo pegando o comando do seu fogão.

- Ah Chef. – Ele sai, acreditem, resmungando.

Mas sabem o porquê ele reclamou, porque estava aprontando. Robson estava com alguns preparativos da sua praça e havia uma panela menor, com um molho em redução, eu olhei aquela panela e aquele liquido de cor diferente, já fiquei com a pulga atrás da orelha, pois tinha aparência de tomate, mas cheiro diferente.

Peguei uma colher, mergulhei na panela, assopro e levo a boca, e ele estava fazendo molho “Á Putanesca”, olhei na sua mesa, e não tinha nenhum pedido com esse molho.

Tínhamos um cardápio grande, eu por obrigação sabia todos os pratos, molhos, acompanhamentos, sobremesas tudo, mas vocês sabem, sempre bate aquela dúvida.

Giovanni passa a frente e eu o questiono;

- Temos algum pedido com Putanesca Giovanni?

- Não Chef, estávamos tendo problemas com o fornecedor das alcaparras. – Ele passa falando.

Mas que merda, tinha alcaparras naquele molho;

- Robson. – Chamo ele que havia levado louça para os meninos.

Ele me olha com a colher na mão e já fica diferente;

- Sim, chef.

- O que é isso?

- Molho “Á Putanesca”, eu estava testando. – Ele diz próximo.

- Não há problemas em experimentar, e tentar coisas novas aqui, eu não coloco restrições a vocês, desde que não desperdicem...

- Eu iria fazer uma massa para nós almoçarmos.

- Ok, sem problemas... – Não tem como, você fala com o funcionário, os outros já ficam de olho.

Giovanni aproxima com uma colher para provar;

- Mas eu quero te perguntar, tem Alcaparras aqui, mas no restaurante não tem, onde conseguiu?

- Ah, sim, eu comprei uma lata. – Ele a tira do meio das suas coisas.

Cheguei a deixar a colher cair na bancada, o Giovanni até afasta, eu passo a mão no cabelo atrás da orelha e digo, tentando não perder a paciência;

- Robson, escuta eu não como nada enlatado! Nessa cozinha por acaso você viu algum ingrediente em conserva?

- Não chefe. Eu não sabia.

Eu respiro fundo;

- Não traga mais nada de casa, o que precisar, fala com o Giovanni, ele é o responsável pelas compras, mas não traga comida enlatada. Estou sendo educado. – Friso com ele.

- Sim, Chef, me desculpe.

- Tudo bem.

- Escute, porque o alho se sobressai mesmo com as Alcaparras? – Giovanni pergunta.

- Ele picou os alhos e amassou as Anchovas junto, fritando ambas no azeite. – Respondo encarando ele.

Robson abriu um sorriso e fez que sim com a cabeça;

- Como sabe? – Giovanni pergunta provando de novo.

- Esse truque é meu, só não sei como você descobriu isso Robson.

- O senhor tinha um blogger onde colocava as receitas testadas, se lembra?

- Nossa, sim, época da faculdade.

- Sim, escrevia a receita, truques e o que não conseguia...

- Como assim? – Giovanni pergunta.

- Essa receita, tem ingredientes pesados, e muito fortes, tanto que não vai sal, porque já é bem salgados, o que eu não sentia era o aroma das azeitonas, como ele fez. Porque as Alcaparras domavam tudo. Que fez? – Encaro Robson.

- Manjericão para trazer o frescor dos tomates, e azeite aromatizado. Afinal de contas azeite é feito de azeitonas, e como já tem na receita, porque não mudar para um disponível.

Olho para Giovanni que estava sem palavras, mas não perde a oportunidade;

- Essa pegou até eu chef, azeite aromatizado, que boa sacada.

- Ele está certo Robson, parabéns, boa ideia.

- Obrigado chef.

Autorizei ele a servir o molho aos meninos para almoçarem, mas não ao salão.

Depois fiquei com o Giovanni na praça de montagem, quando começou a saída dos pedidos;

- (...) tem mesmo que admitir chef, a ideia foi excelente.

- Sim, me surpreendeu bastante. Quero que va atrás de outro fornecedor, temos que testar aquele molho com as ideias de Robson.

- Vou fazer isso amanhã.

- Ótimo. Mesa 20 pratos prontos. – Falo ao garçom Sandro.

Ele estava de pé ao lado da porta do salão, olhando para fora, eu peguei o pano de prato secando as mãos e comento com Giovanni;

- Está dormindo em pé o Sandro.

Giovanni bate na bancada, pouco alto e grita;

- Ei vamos trabalhar?

Nós ainda sorrimos, mas Sandro não.

Foi meio assustador eu confesso, a porta do salão se abre, com o Dante entrando;

- Eu falei, ele estava aqui. – Ele grita me olhando e vem em minha direção.

A minha atitude foi segurar no braço de Giovanni de medo e susto. Todo mundo ficou de olhos arregalados com sua coragem.

Robson o empurra ficando na nossa frente;

- Aqui não meu irmão. – Ele para na frente do Dante.

- Está maluco é? – Jaime aproxima.

Robson, Jaime, Ângelo os meninos da cozinha me protegeram, ele mesmo assim ameaçou;

- Você vai acabar com minha vida, retira aquela denuncia, Stefano, eu não brincando. Agora quer minha corretora? Você tem merda na cabeça, se continuar com isso eu coloco fogo nesse lugar, está me ouvindo. – Ele gritava dentro da cozinha.

Mano fiquei apavorado com sua coragem.

O juiz decidiu que ele não poderia se aproximar por menos de 500 metros de mim, e ele aparece no Le’Bianco.

No dia eu nem me dei conta, mas Lorena sempre comentava que havia policiais que almoçavam no restaurante de graça, isso por conta dela, dizia ser por segurança e comentou também outras coisas.

Nesse dia, com o Dante na cozinha, tínhamos homens para colocar ele na rua, tínhamos segurança, mas a questão aqui era polícia.

Não foi ideia, ou a atitude minha, e sim de Lorena, ele ainda gritava quando ela entra com dois policiais. A cena foi a pior possível, em todos os sentidos.

Com o salão cheio, e um escândalo na cozinha de tamanha proporção.

Eles entraram e derrubaram o Dante, algemando ele que não parava e estava como uma fera, muito estranho mesmo, tenho lembranças desse dia ainda.

- (...) Não esquece Stefano, eu acabo com você se continuar com isso. – Ele gritava saindo.

E ainda falou barbaridades no salão. Quando ele foi visto, chamaram a polícia, mas a Lorena foi mais rápida e chamou seus amigos, com isso chegou mais dois carros no restaurante, gente aquilo virou um evento, pois havia fotógrafos no lugar, se não me engano 4 estavam na porta do restaurante.

E claro, fizeram seu mês com esse furo.

Na cozinha, eu me sentei, foi sim, um susto daqueles Giovanni me dá um copo de agua, e Lorena volta;

- Levaram ele, mas Stefano, eu tenho um salão com quase 40 pessoas apavoradas, que eu faço? – Ela assim como eu tremia toda.

- Eu vou lá. – Falo levantando.

Foi um NÃO, de toda a cozinha, ninguém aprovou;

- Precisam de uma explicação, é meu restaurante, eu tenho que ir. – Falo passando a mão na Dólmã.

Havia pessoas de pé, outras conversando, e todo mundo desnorteado ainda;

- Sando me dê esses pratos, me acompanhe. – Falo com ele.

Eu sai, com todo mundo me olhando, fui até a mesa do pedido, os sirvo e falo;

- Eu vim, pessoalmente pedir desculpas, pelo ocorrido, não sabíamos que ele iria burlar uma decisão judicial. E quero...

- Não precisa se desculpar Chef, isso é o que pessoas passam todo dia, por ameaças de homens assim. – A senhora me interrompe.

- O que está fazendo é lutar, e apreciamos isso. Que não aconteça novamente, pois deve estar assustado. – A sua filha me fala.

- Um pouco. Como estava dizendo, a sobremesa é por conta da casa. Obrigado pelas palavras.

- Nós que agradecemos.

De mesa em mesa, de cliente em cliente, eu pedi desculpas, e ouvi coisas maravilhosas, que acalantaram meu coração por um momento.

Voltei a cozinha, falando aos meninos;

- Temos um salão com sobremesas de graça. – Falo para eles olhando para Lorena. – Me escutem. – Chamo novamente a atenção deles. – Obrigado por serem tão fodas comigo. E por estarem enfrentando meus problemas comigo, vocês são minha família, aquela em quem eu escolhi. Amo cada um de vocês, já falei isso antes. Obrigado por tudo.

Eles ainda me zoaram, pelas palavras, Giovanni até encheu os olhos de lagrimas, eu entro na minha sala, a Lorena vem com uma agua, e me entrega, acho que foi quando me bateu o susto.

Comecei a chorar e ficar mal, muito mal, não sabia explicar;

- Só chora amigo, chora... não diz nada! - Ela me abraçava.

Minha cabeça tinha milhões de coisas, e sempre uma se passando na frente da outra, eu era culpado por isso? Ele era culpado por isso?

Era uma mistura de sentimentos, e uma bagunça dentro de mim, cobrança, responsabilidade e julgamentos, muitos julgamentos. Que estavam se escorrendo pelos meus olhos.


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