• @rgpatrickoficial

Clichê - Terceira Temporada - Cap. 20

#Augusto

Entrei no carro e ela ajeitando o retrovisor;

- Está saindo sem segurança agora?

- Sim, porque acha que vou precisar com você no volante?

Ela olha;

- Não idiota.

- Estou me virando sem eles, Matheus fica mais pela segurança da residência e do Kleber, com ele tem mais trabalho do que comigo.

Helena foi saindo da residência;

- Mas Guto, você cresceu com eles né?

- Sim, sempre foi normal para mim ter um ou dois, próximos.... Mas e ai, quando vai me dizer para onde estamos indo?

- Já falei, é surpresa, para de ser tão ansioso.

- Não sou ansioso, só gosto de saber das coisas.

- Autoritário!

- Sim, muito.

- Fica quieto no seu canto, enquanto uma garota dirige para você tá.

Eu dou uma risada e comento;

- Tecnicamente você não deveria dirigir mal, afinal de contas...

- Guto cala a boca.

- Ok.

Alguns bons minutos enchendo a Helena, conversamos bastantes sobre moda, eu explicando os conceitos e táticas usadas pela universidade onde estudei, estávamos fazendo uma troca de experiências;

- Aqui chegamos... – Ela estaciona o carro.

- Casa 1? Me é familiar esse nome.

- Vamos? – Ela desliga a chave, pegando a bolsa.

- Vai deixar ele assim?

- Qual problema?

- Que bom que você é uma ótima estilista Helena, porque se fosse motorista, morreria de fome.

- Quer carona para casa, ou não?

- Rsrs, vamos.

A rua tinha algumas vans, e vários carros, e também era possível ouvir uma música de fundo.

Ela tocou o interfone e pela câmera abriram, liberando a entrada.

Quando entramos, veio dois garotos, já adolescentes já;

- Tia Helena! – Eles abraçam ela.

- Ai, meu Deus que saudade de vocês...

Eu fiquei olhando o local, eram o terreno de duas casas, a esquerda, uma piscina, e um jardim do fundo, onde tinha algumas pessoas, uma casa gigantesca de três andares, com uma área bem grande e arejada.

Helena vai abraçada com os meninos, e grita na área, onde algumas pessoas mais velhas estavam reunidas em uma mesa;

- Oi pessoal.

Todos sorriem respondendo, e entramos, logo vem uma senhora;

- Ai não acredito! Quem é vivo sempre aparece.

- Oi Lucia.

- Quanto tempo filha.

- Me perdoa querida, é que está tão difícil as coisas.

- Eu sei... E esse rapaz?

- Prazer, Augusto.

- Prazer querido, sou Lucia. – Beijo seu rosto.

- Lucia esse é meu amigo de infância, e trouxe ele hoje, pois seria uma boa para conhecer a ONG, pode explicar para ele o que fazemos aqui? – Helena deixa a bolsa, chaves e celular.

- Claro! Augusto...

- Pode me chamar de Guto.

- Ótimo, Guto, somos uma casa que acolhemos adolescentes que foram expulsos de casa, seja por agressão familiar, por sua orientação sexual, entre outras causas. Com acompanhamento psicólogo e medico, para que elas possam ter uma vida como qualquer uma.... Vem comigo. – Ela me acompanha para fora.

- Você é responsável?

- Eu sou uma das, somos várias “madrinhas”, como eles nos chamam. No andar de cima temos quartos, banheiros, aqui embaixo fica escritório, local para estudarem, comerem, e diversão, temos tudo.

- Isso aqui é maravilhoso. – Nós íamos andando pelo quintal, que por sinal era bem grande. – Existem oficinas também?

- Sim, aqui de corte e costura, musica, até capoeira. Oferecemos também aulas de inglês e espanhol.

- Tudo com doações?

- Sim, a uns dois anos atrás recebemos uma doação milionária, que pode manter a casa viva por vários anos. Hoje as madrinhas que mantem ela mais acesa que nunca.

- Lucia porque tem tantos senhores e senhoras aqui?

- Hoje é dia de visita, temos alguns asilos da comunidade que fazem visitas aos adolescentes. Essa turma de hoje, é aqui do outro lado da rua, o normal é nós nos deslocarmos.

- Que está acontecendo ali? – Aponto para uma roda de garotos.

- Toda semana a 2 a 3 reuniões, estão contato experiências e ensinamentos.

- Posso aproximar?

- Claro, porque não participa? – Ela me acompanha.

- (...) Mesmo sendo difícil, e um desafio, eu sei que preciso passar por isso, para meu crescimento pessoal... – Um dos garotos, de cabelo colorido estava falando quando cheguei.

- Boa tarde meninos, esse é um superamigo da tia Helena, e ele quer participar da reunião com vocês.

- Senta aí. – Um fala.

- Usa meu lugar. – Outro dispõe a cadeira.

- Obrigado pessoal.

Todos aparentemente entre dezoito e 24 a 25 anos de idade.

Eram oito sentados em círculo, um deles cedeu a cadeira, e se sentou no chão, e a garota do meu lado diz;

- Apresente-se. – Ela fala bem sorridente.

- Bem eu me chamo, Augusto, tenho meus vinte e quatro anos, e sou bissexual.

- Eu também sou bissexual e mesmo com todo nosso avanço, ainda sofro preconceito até da nossa resistência. – Um garoto fala comigo.

- Eu te entendo, perfeitamente. – Eu ia falando e eles me escutando, prestando muita atenção. A essa altura a Lucia havia me deixado, só estava eu e os garotos. – Escuto já ouvi muito as pessoas me dizerem, que eu sou gay, e não tenho coragem de me assumir. Mas eu sou assumido, eu gosto de garotas e gosto de garotos, não me privo, e não gosto de me rotular.

- Foi difícil se aceitar? – O rapaz que cedeu a cadeira, pergunta.

- Dói né? Dói aqui dentro. – Coloco a mão no peito. – Mas comigo foi mais uma luta interna, comigo mesmo. Demorei, passei pelo período de negação, mas hoje consigo falar isso abertamente.

- Como se assumiu? – Novamente a garota.

- Eu sou um cara sortudo. E sou privilegiado, minha mãe me apoiou, meu irmão me apoiou, mas meu pai nunca aceitou.

- Você me parece familiar.... Acho que já te vi em algum lugar. – A garota comenta.

- Não liga Augusto, ela te achou bonito e não quer dizer. – Um fala tirando sorriso dos outros.

- Haha, Obrigado. Olha talvez você não me conheça, mas conhece a minha mãe, Dona Nice Petrini.

- Meu Deus, você é Augusto Petrini?

- Sim.

- Eu sou sua fã. – Ela pega em minha mão.

- Aí obrigado, mas não sei se mereço.

- Não viu, quero ser estilista quando me formar.

- Aí parabéns, percebi de longe seu look.

- Posso te dar um abraço?

- Claro.

- Ei, deixem ele em paz... Continuem... Breno pode falar querido? – Helena vem com a mão em meu ombro.

- Sim, posso sim.

- Oi gente, acho que a maioria aqui me conhece, eu me chamo Breno, tenho vinte e três anos, e sou travesti.

- Oi Breno. – Todos falam.

- Helena pediu para eu contar minha história, pois é uma história de superação. Eu nasci afeminada, eu vive e cresci assim, mas a família tenta esconder, mascarar. Eu não saia de casa, minha mãe não saia comigo, ela nunca disse, mas tinha vergonha do filho que tinha sabe. Até aos quinze anos e me assumir, chegar e enfrentar ela dizendo que sou gay! Acho que ela mal pode esperar sabe! Eu fui colocado para fora, morei na rua até os dezoito anos de idade.

- Você foi colocado para fora com quinze anos? – Pergunto.

- Sim.

Eu já estava debruçado em meus joelhos, atento ouvindo ela;

- Assim como todo gay, travesti, eu usei muitas drogas, muitas, para ficar acordado, para passar a fome! E também fiz programas, é a realidade de muitas de noz hoje em dia. Tive a oportunidade de mudar meu nome, mas eu gosto de Breno sabe, acho forte.

- Quando foi que você conheceu a Casa 1? – Pergunto.

- No pior momento da minha vida. Eu tinha uma padaria em que sempre ganhei pães do dia anterior, nossa foram os meses mais felizes da minha vida, eu tinha onde comer sabe! E em uma manhã como qualquer outra, fui bem cedo para esperar eles abrirem, peguei meus pães e estava vindo embora. No segundo quarteirão onde havia uns lotes baldios, eu percebe uma moto passar devagar, depois escuto ela voltando. Eu não tive tempo de gritar, de brigar ou me defender, ele desceu e me arrastou para dentro de um desses locais, onde havia construções, ainda lembro de seus braços peludos e fortes me segurando. Eu conseguir me soltar, mas cai no chão e sinto uma pancada na cabeça. Só acordei no hospital, com a Helena e Lucia me olhando. Ele me estuprou e bateu com um pedaço de madeira em minha cabeça, ele queria me matar.

Não só eu, mas alguns também choravam;

- Helena a Lucia, me acolheram como filha. Eu fui muito bem tratada no hospital, arrumaram até um advogado, para colocar aquele monstro na cadeia. Eu não me orgulho disso, mas na cadeia ficaram sabendo que ele foi preso por estupro, e vocês sabem o que acontece com esses caras lá dentro. Com pouco mais de duas semanas aqui na Casa 1, eu fugi, até a esquina, onde Helena me pegou de volta, até então vivo aqui.

Limpei meus olhos, e respirei perguntando;

- Que você faz agora Breno?

- Sou psicóloga do clube do Botafogo aqui no Rio.

- Botafogo o time de futebol?

- Sim. E também ajudo aqui na Casa 1, com consultas aos meninos e no que puder.

- Meu Deus, meus parabéns, você é um exemplo, apaixonado na sua história. – Falo puxando palmas. – Mesmo ajudando a todos, existe algo que você ainda deseja realizar?

- Realizei Augusto a dias, minha mãe e irmão soube que eu estava bem, digamos assim. Mas quero encontrar meu pai. Descobri que ele está vivo e que mora no Rio.

- Porque o seu pai?

- Não conheço ele, e pode ser que ele me aceite como eu sou sabe.

- Posso te dar um abraço?

- Sim.

Ela se levanta eu aperto ela com força, e todo mundo se levanta, fazendo daquele um momento, um abraço.

Me fizeram prometer uma visita à fábrica da minha mãe, rsrs.

Eu ajudei a levarem os idosos para o asilo, que ficava do outro lado da rua. Depois jantamos, chegou mais alguns jovens, outros indo para faculdade.

E gente, foi uma tonelada de histórias e aprendizados.

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