• @richardsongaarcia

Clichê - Capitulo 33

Eu abro meu armário e ele do meu lado;

- Na boa, Samuel qual é a sua?

Ele fala com as pessoas olhando;

- Não tem “qual é a minha”. Só disse o que eu acho. – Pego meu livro.

- Eu estou tentando, estou tentando mesmo. Mas se você não deixar e nem da abertura, como quer que temos uma amizade agindo assim? – Ele gesticula com as mãos.

- Eu não quero. – Bato o armário com força.

Mano que raiva, eu saio com ele parado igual estatua, com todo mundo do corredor olhando.

Merda primeira aula de história, eu entrei na turma trocando de lugar, sentando já longe para não ter problema.

Maldita hora que decidi vir sem me montar!

Ele entra com o restante da turma, se senta na primeira fila, era visível que ele estava puto. Que ótimo, pelo menos isso eu consegui.

O professor entra, pede que todos se sentam, e me olha, ele leva alguns segundos para digerir e raciocinar. Enquanto falava seus olhos vinham em mim;

- (...) E com isso, grandes pensadores e a maioria usou sua influência com discursos muito famosos! E para a aula de hoje vocês terão que vir aqui na frente e fazer discursos com temas que seus colegas decidirem! Todo mundo pega um papel e escreve sobre um tema, o que vier na cabeça.

Peguei um papel e escrevo, “Homofobia”. O professor escrevia o nome das pessoas da sala e colocava em um pote vermelho, e passou pegando todos os papeis, colocando em um pequeno pote azul.

Ele pediu que organizássemos a sala, em formato de “U”, e sentou ao fundo, bem ao meio, com os potes e um caderno;

- Vamos lá, vou sortear um nome, e um tema, a pessoa vai lá na frente e falar sobre o assunto. A primeira pessoa é Fabiano... Vai falar sobre Racismo!

Ele se levanta indo até a frente da sala;

- Fabiano quero que faça um discurso sobre Racismo.

- Ok, posso falar como em uma dissertação?

- Não, quero um discurso sobre Racismo, e com fundamentos!

- Tudo bem.

As notificações do Twitter no meu celular eram mais interessantes do que o clichê que ele falava.

O tempo do Fabiano termina

- Alguma pergunta? .... Não. Pode se sentar Fabiano.

E o professor senta ele, puxando as palmas.

- O Próximo ou a próxima... Samuel... Samuel que está diferente hoje! Vai falar sobre Preconceito social.

- Ui adoro. – Eu já me levanto.

- Falando sobre Preconceito Social vamos lá.... Pode começar Samuel.

Já fiquei na frente, encarando aquele bando de urubus;

- Acho que não tinha tema melhor para eu poder falar. Sabem o porquê? Eu vivo isso diariamente aqui dentro do colégio, porque eu consegui uma bolsa estudando seis meses sem parar, virando noites e me dediquei para isso! Para entrar estudar e ter o mesmo nível de ensino que vocês. E acham que mesmo assim vocês me olham nos olhos? rsrsrs de forma alguma, e eu achava que era porque eu sou gay, assumido e afeminado. Mas não é porque eu sou pobre e moro na favela...

- Senhor Samuel não é um debate, é um discurso. – O Professor me repreende.

- Sim, senhor.... Essa manhã tivemos a prova que estamos em um dos colégios mais importantes do pais, e com futuros, gênios em todos os sentidos, eu sei disso, tenho essa consciência! Vocês são muito inteligentes, falam várias línguas. No café o Augusto mesmo me disse, estudar Frances, inglês e economia aplicada em casa, alguém aqui ousa a discordar que ele é um cara inteligente? Intelectual? Não, e vocês estão certos, mas Guto, você sabe o nome da tia do refeitório que todo dia lhe serve e fala bom dia? – Eu olho para ele.

Ele estava desconfortável e demonstrou isso;

- Pode responder senhor Petrini. – O professor chama sua atenção.

- Eu não sei o nome dela. – Ele não me olha.

- E o nome da moça da limpeza, a que anda de verde nos corredores? Você sabe Fabiano? – Ele só gesticula que não.

- Sabe o porquê não conhecem a Dona Marta que serve vocês no refeitório, ou a Dona Fatima da limpeza? Porque são preconceituosos, todos vocês, e ninguém aqui admite, mas não precisa porque vocês sabem disso.

- Chega Samuel. – O professor me repreende.

- Eu quero fazer uma pergunta. – Guto levanta a mão.

- Tem certeza? – O professor pergunta ele.

Ah eu iria adorar dar mais na cara dele, ainda mais do lado do Fabiano;

- Porque para a classe mais desfavorável da população acham que só porque alguém tem mais poder aquisitivo, faz, ou fez algo de errado para estar onde estão.

- Porque vocês fazem Guto! Existe sim um preconceito do pobre contra o rico. O Brasil e o único pais em que você ser rico é um problema, é mal visto. Porem temos uma crença antiga desde a época da escravidão que quem tem dinheiro, ou fez muito dinheiro fez algo de errado.

- Você concorda com o que está falando?

- Em partes, vou usar o colégio como exemplo, por ser uma realidade em que estou inserido. Existem sim pessoas aqui que merecem, que chegaram lá. Sua mãe, é um exemplo, usando o dom que Deus deu para ela, se tornou uma mulher de sucesso, agora já o seu pai...

- Samuel agora chega. Senta no seu lugar.

Ele já estava bravo, o Guto não se deu muito por satisfeito não;

- Já que está querendo falar Augusto, de pé. – O professor pega a caixa dos temas. – Vai falar de Homofobia. E pelo amor de Deus, discurso. Se seguir a linha do Samuel terei que interromper você também.

- Tudo bem. – Ele gesticula com as mãos, olhando para o chão, e vai de um lado para o outro, como se estivesse pensando no tema, já fiquei com ranço aí. – Todo mundo aqui sabe que eu sou. Bissexual, assumido, pelo meu relacionamento com o Fabiano. – A Poc padrãozinho abre um sorriso. – Mas isso não vem ao caso, eu para me assumir, e entender o que eu sentia demorou um pouco, mas diferente da grande massa, eu sou um cara privilegiado e de certa forma me sinto desrespeitando a classe ao falar sobre homofobia. Sabem o porquê, tanto eu, quanto o Fabiano! Olhem para nós, olha para mim, a população não me julga, não julga o Fabiano! Qual foi a última vez que você sofreu homofobia? – Ele pergunta a Fabiano.

- Acho que por parte de algumas pessoas da minha família, nada demais.

- Certo, eu Augusto, não me lembro de ter sofrido algum tipo de desrespeito ou preconceito por sair com caras ou garotas. Sabem o porquê? Por causa de pessoas como o Samuel! Não ele em pessoa, mas quem ele representa.... – Ele apontando para mim. - Representa a mim, representa o Fabiano. Um gay da sua família, um gay que você vê na rua. Entendam. Imaginem uma previa cena de guerra, tem duas grandes massas desiguais é claro, de um lado a massacrante maioria privilegiada os homofônicos, pessoas preconceituosas, ignorantes, todo e o pior tipo da humanidade. Agora desse lado a minoria, eu, Fabiano, Samuel todas os LBGTQIA+, simpatizantes e que apoiam a causa. Na linha de frente dessa batalha estão as Drag, afeminados, Travestis, Lesbicas. Estão de mãos dadas e formando uma proteção, atrás os gays intitulados “discretos”, atrás dos gays os bissexuais e assim por sussessivamente. Quando o inimigo chegar ele vai consequentemente ferir a linha de frente primeiro, eles quem vão morrer por nós, eles quem vão sofrer todo santo dia, para eu e o Fabiano possamos andar de mãos dadas na rua, ter direitos iguais. Agora voltando no que eu estava falando, sabem o porque eu não sofro homofobia? Porque quem está sofrendo por mim é o Samuel, os xingamentos, julgamentos e ferimentos quem sofre é quem está na frente, lutando dia a dia. O que eu disse aqui não é 10% do que ele passa, só ele pode dizer isso, e só ele pode dizer, se eu estou certo. Estou?

Eu estava arrepiado, com um nó na garganta que se eu abrisse a minha boca as lagrimas escorriam.

Então gesticulei que sim com a cabeça;

- Se eu falei algo errado, agora ou alguma vez, me perdoe, eu não sinto a dor que você sente!

Guto se aproxima, pega em minha mão, e puxa, me levantando e me abraçando. A sala bate palmas para ele.

Melhor aula da vida, serio.

O professor continuou a dinâmica de apresentação. E no fim da aula, quando eu estava saindo o Guto vem em mim, segura em meu braço questionando;

- Ei. Espera.

- Tudo bem?

- Sim.

- Falei merda né?

- Até que não.

- Ufa. – Ele diz aliviado e de sorriso no rosto.

- Mas isso não muda nada, só para constar.

Ele não me responde, e sim “entra” na minha alma com aquele olhar.

Vou saindo com a voz do Fabiano atrás;

- Até quando vai ficar puxando saco dele?

- Não é puxar saco. – Guto o responde.

No corredor eu colocando meu material no armário, o Elias passa com o uniforme do time, então pergunto;

- Sabe do Caio?

Ele me ignora e passa como se eu não existisse. Então uma garota de óculo do outro lado do corredor responde;

- Vi ele no jardim ao lado do ginásio.

- Obrigado.

O lugar onde ela disse, era um pequeno gramado, com uma arvore gigante que tinha uma sombra maravilhosa. Havia dois bancos com mesas lá em baixo.

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