• Richardson Garcia

Clichê - Capitulo 16

- Está tudo bem? – Ele me olha.

Eu mostro a palma de minha mão, que involuntariamente tremia;

- Samuel está passando mal?

- A mãe do Guto está ali.... Tem ideia de quem é aquela mulher? – Falo apontando.

- A Dona Nice? – Ele fala com a maior normalidade do mundo.

- Dona? Conheceu ela?

- Sim, quando ela chegou eu estava com o Guto, conversamos um pouco antes de ele vir para o vestiário.

Começo a morder as unhas, e encarando de longe;

- Quero falar com ela, será que vou? Que acha?

- Acho que não consegue chegar perto dela de jeito nenhum.

- Porque? - Pergunto desesperado.

- Só ao lado dela tem quatro seguranças, ali tem outro, do outro lado também, e mais dois do lado de fora. – Aponta para as extremidades do ginásio.

- Que tem haver, você vem comigo! - Puxo ele pelo braço.

Atravessamos o estádio, ficando bem próximo dela, serio tipo uns seis metros.

Meus olhos ficaram marejados, ao ficar olhando ela de longe.

Ela não estava sentada na arquibancada, e sim ao lado do diretor do colégio, em um lugar separado, toda elegantíssima, e esbanjando glamour.

O Guto passa acompanhado pelo treinador, e a essa altura eu nem me importava mais com os garotos de sunga, rsrs.

Eu pisquei, juro pisquei e ela sai acompanhada dos seguranças. Achamos que ela havia ido com o Diretor, eu então falei com o Caio para acharmos o Guto;

- Mano, depois pede ele, que te apresenta ela, agora ele deve estar comemorando.

- Foda – se, vamos Caio, me ajuda.

Descemos no vestiário onde todos estavam se preparando, e nada.

Quando eu sai do local dou de cara com o Guto;

- Ei calma. – Ele fala me segurando.

- Que bom que te achei. – Falo “esbaforido”.

- Estava procurando você na arquibancada.

- Porque?

- Se liga, vem comigo.

Gente ele pegou na minha mão e subimos as escadas, eu nem conseguia falar, fiquei calado, economizando ar rsrs.

No corredor dos armários, onde fica os laboratórios, tinha dois seguranças frente o Lab. De química, a gente se aproximou e um deles fala;

- Augusto ele não pode entrar de mochila. – O cara diz.

Guto me olha e a mochila já estava no chão. O Segurança abriu a porta, e ela estava sentada na cadeira do professor, e de pé o Fabiano conversando com ela.

Ela me olha, o Guto passa a mão em meu ombro e fala, em passos lentos;

- Mãe, esse aqui é meu amigo de quem eu te falei, Samuel Faria... Nice Petrini.

Ele me solta, saindo de perto e eu quase caio no chão;

- Oi! – Foi o que consegui falar.

Ela estende a mão, eu a toco, e ela comenta;

- Já gostei de você quando Guto me disse da maquiagem.

- Aí, obrigado. Posso te dar um abraço?

- Sim, vem aqui.

Gente eu abracei ela tão forte, e não aguentei é claro chorei, não tive outra atitude. E aquele cheiro doce, confortável, meu Deus, queria levar para casa.

- Eu falei que ele gostava da senhora. – Guto diz rindo e se sentando na mesa ao nosso lado.

- Foi por sua causa que decide seguir carreira em moda, e é esse meu intuito e é o que vou fazer da minha vida é o que eu quero fazer.

- Você é um fofo sabia, mas me conta, para a maquiagem você já leva jeito, e gosta de desenhar também, costura? – Eu ainda segurava sua mão.

- Maquiagem, eu não bom desenhando, mas sei como ninguém montar um look babado, rsrs.

- Ah então dá uma ótima dupla com o Augusto?

- Como assim? – Questiono olhando para ele.

- Mãe, por favor! – Ele fica vermelho.

- Augusto também desenha, e muito bem viu. – Ela sobe a autoestima do garoto.

- Ele não me contou isso.

- Sim.

- Não é importante. – Ele diz.

- E essa roupa? Uh, você cortou essa calça? – Dou-lhe uma volta.

- Sim.

- Olha, eu colocaria um balanço de cores nesse seu look.

- Umas pulseiras, coloridas? – Fabiano diz.

- Uma pochete. – Guto diz.

- Pensei no mesmo também. – Ela concorda. – Um salto alto.... Você sabe andar de salto?

- Sim.

- Vou enviar alguns para você então. – Ela gesticula com a mão.

Fiquei de boca aberta, sabe babando;

- Senhora, temos que ir. – O segurança se aproxima. – Estamos prontos para sair.

- Gente adorei a conversa, prazer te conhecer em Samuel, e você também Caio. – Ela abraça e dá dois beijos em cada um. – Parabéns meu filho... – Ela abraça o Guto.

- Vou com a senhora. – Eles saem.

- Tchau meninos. – Ela diz novamente.

O Fabiano sai da sala, e eu me sento no lugar onde ela estava chorando, chorando muito mesmo, a maquiagem já era.

Caio pega minha bolsa e fecha a porta da sala;

- Você gosta mesmo dela né? – Ele senta à minha frente.

- Foi em 2014, eu estava vendo uma revista, até então eu sabia que era gay, estava conseguindo me aceitar! Então vejo uma coleção que ela fez inspirada em mulheres que moravam nas ruas. – Contando e limpando lagrimas. - As peças, as histórias, tudo me encantei. Desde então comecei a me montar, eu me maquiava em casa com as coisas da minha mãe, roupas, tudo. Caio eu compro toda revista que tem o nome daquela mulher. Ser gay, ser afeminado colocar um short curto, ou pintar as unhas. Não me faz menos homem que você, hoje eu consigo falar isso por causa dela, me encontrei na sua história de vida.

Ele ficou de cabeça apoiada nos braços sob a mesa, me olhando;

- Eu sinto o mesmo, mas no meu caso foi o Neymar. Inspiração e história de vida, mas eu Samuel não tenho o direito de me comparar a você. Muito bonito seu amor por ela.

- Obrigado amigo, tem se mostrado o cara mais foda que eu conheci.

Estico a mão para ele, que segura dizendo;

- E eu tenho apreendido muito com você. Agora vamos comer? Antes que todo aquele ginásio vem? – Caio se levanta.

- Sim, vamos, deixa só eu dar um jeito nessa maquiagem.

No refeitório, eu e o Caio nos sentamos juntos, como sempre, e hoje o Guto ficou com a turma da natação, pois somente 2 do Jaó se classificaram.

- Que isso, porque a pressa para comer? – Falo com ele.

- Trabalho de história, e eu não estudei muito bem.

- Mas tivemos o fim de semana, você disse que iria estudar.

- Meu irmão de novo.

- Aí gente, que aconteceu?

- A Facção foi lá em casa no sábado, quebraram tudo Samuel...

- Não brinca, mas e sua mãe?

- Está bem, sabe, triste, mas bem.

- Que seu irmão fez Caio?

- Devendo um baita dinheiro. Minha mãe já pegou um dinheiro que tinha guardado e mandou ele para longe.

- Sim, está certa, afasta ele um pouco, sabe muito bem que acontece quando eles vêm cobrar.

- Sim.

- Posso? – Fabiano chega com sua mochila.

O Caio que já havia terminado fala;

- Vou nessa, a gente se fala depois Samuel.

- Até.

- Tchau gatinho. – Ele diz a Caio. - Me conta a verdade já pegou ou não?

- Somos amigos.

- Não consigo ser amigo de um homem como ele, aquele rostinho de moleque piranha me deixa louco.... Aí deu até calor aqui.

- Ele é muito lindo mesmo, mas é um cara muito foda tambem.

Eu estava apreendendo a gostar de falar com o Fabiano. Tudo bem ele ser o gay padrãozinho, mas era o único gay que eu tinha para falar dos homens do colégio. E de certa forma a empatia era instantânea, mesmo ele sendo meio fútil.

- É você gosta muito da Nice!

- É minha vida o trabalho daquela mulher.

- Trabalho a um tempo com ela e realmente é especial...

- Meu sonho, um dia poder falar que trabalho com ela. Deve apreender muito.

- Sim, muito, mas estou quase cuidando de uma parte da nova coleção.

- Tem muita sorte.

- E você e o Guto, tem conversado?

- Sim, ele está se mostrando um cara muito especial, um amigo. – Respondo com um sorriso no rosto.

- Especial? – Ele fala pouco alto.

- Sim.

Não entendi o porquê minha palavra chamou tanta a atenção dele;

- Só não me diz que está apaixonado por ele. – Fabiano diz se aproximando.

- Não, eu gosto dele, mas não apaixonado...

- Ufa.

- Porque ufa?

- Deixa eu te explicar uma coisa Samuel... – Ele pega uma framboesa da minha sobremesa. – Esse aqui é você, e esse morango é o Guto. Aqui está você. – Ele coloca a cereja na mesa. – E lá está o Guto. – Fabiano joga o morango quase que do outro lado do refeitório.

- Você jogou meu morango fora. – Falo puto.

- Augusto não é para você Samuel.

- Porque não? Porque é hétero?

Ele sorri ironicamente e diz;

- Por isso! – Ele confirma. - Você não conhece ele.

- Eu conheço sim Fabiano. Você que está enganado.

- Eu jurei não contar isso para você, mas você é muito ingênuo! Sabe a coleção Mulheres de Rua? A premiada coleção de Nice Petrini? Roupas que influenciaram gerações de estilistas e mudaram a forma como se produz e desenha.

- Eu sei tudo dessa coleção Fabiano, está ensinando o padre a rezar.

- A coleção não é da Nice.

- Como não, que mentira!

- Augusto desenhou aquela coleção aos quinze anos de idade. Nice adicionou a história na criação do filho. O senhor Machado proibiu ter o nome do filho estampado como estilista, Nice levou todo o credito.

- Porque está inventando isso Fabiano? – Meu coração disparado.

- Ele não precisa do dinheiro do pai, isso por causa daquele ano. Você passou anos da sua vida amando a pessoa errada, Guto que te inspirou, não a Nice!

- Não acredito em você.

- Ela mesmo disse hoje, ele desenha!

- Porque está me falando isso?

- Só abrindo seus olhos amigo, Augusto é aquele cara que não olha para o seu tipo, estou falando para o seu bem, para não se iludir. Se tem dúvidas pergunta para ele.

Sei lá, era como se tudo que eu tinha acreditado em minha vida toda, fosse mentira, foi um balde de agua fria, mas não aceitei as palavras de Fabiano, eu iria até o Guto.

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